Como os investidores lidaram com a volatilidade renovada de julho, com aumentos de tensões geopolíticas e dúvidas sobre a tendencia de IA?
Julho voltou a ser um mês marcado pela volatilidade: o Memorando de Entendimento assinado pelo Estados Unidos e Irã um mês antes foi interrompido, empurrando os preços do petróleo para cima e provocando ondas de choque nos mercados de renda fixa e de ações; o Brent chegou a US$ 100 por barril, o maior nível desde meados de maio. Embora as bolsas de países desenvolvidos tenham encerrado o mês com alta de 0,5%, a história principal mais uma vez foi a turbulência intramês, com o VIX atingindo 22. As preocupações com gastos excessivos em IA também ganharam força, levando o mercado a reduzir exposição aos vencedores do 1S26, como semicondutores, e a migrar para bolsas menos “queridas” pelos investidores. Enquanto isso, os yields globais alcançaram 4,0% com o retorno da incerteza geopolítica e a volta do temor inflacionário — alta de 20 pontos-base no mês e 60 pontos-base acima do nível do início do ano.
Os principais bancos centrais mantiveram as taxas inalteradas em julho. O tom, porém, ficou mais preocupado com a inflação após a alta do petróleo: BCE e BoE reafirmaram a estratégia de conduzir o combate à inflação “mês de cada vez”. Três membros votantes do Federal Reserve defenderam um aumento de 25 pb na taxa de política monetária, evidenciando divisões dentro do banco central. Ao fim do mês, o mercado precificava 70% de chance de alta de juros pelo Fed em setembro. De forma semelhante, os mercados seguem precificando ao menos uma elevação de juros para BoE, BoJ e BCE, com expectativa de pelo menos uma alta adicional ainda neste ano.
Os yields do tesouro dos Estados Unidos de 10 e 30 anos subiram cerca de 30 pb em julho; o 10 anos encerrou o mês em 4,73%, o maior nível do ano. Investidores passaram a questionar a credibilidade do Fed no combate à inflação, após a falta de forward guidance por parte do presidente Warsh. A ponta curta da curva também ficou sob pressão: o 2 anos avançou 12 pb, à medida que o mercado incorporou energia mais cara e um Fed mais hawkish. Os títulos globais de grau de investimento (IG) seguem como a classe de ativos com pior desempenho no ano; novas altas de yields levaram o retorno acumulado para -0,6%. Crédito de alta qualidade e duration curta continuam atraentes, diante da precificação de ao menos uma alta de juros até dezembro. Com yields mais altos desde o início do ano e maior incerteza sobre a trajetória das taxas, o cenário segue abrindo espaço para gestão ativa em renda fixa.
A temporada de resultados começou forte, com expectativa de crescimento de 28% para o EPS de 2026. Ainda assim, em julho continuou a mudança de liderança nas bolsas globais: empresas de IA e semicondutores seguiram em queda, apesar do crescimento de lucros. O setor global de semicondutores recuou 20% no mês, embora ainda acumule alta de 70% no ano, com lucros projetados para avançar mais de 100% em 2026. O pano de fundo segue sendo o mesmo: dúvidas sobre o retorno do capex em IA, valuations esticados e posicionamento excessivamente concentrado. Setores mais cíclicos, como energia, financeiros, imobiliário e consumo básico, se destacaram. Nos Estados Unidos, o S&P 500 caiu 0,1% em julho, no segundo mês seguido no vermelho. Já o S&P 500 equal-weight subiu 1,0%. Na zona do euro, as bolsas avançaram 0,1%, abaixo do desempenho do Japão (alta de 1% no mês). Emergentes caíram 3%, liderados pelo tombo de 17% da Coreia do Sul, que perdeu o posto de melhor classe de ativos do ano para commodities, alta de 23%, puxada sobretudo pela disparada do petróleo. O crescimento global de lucros segue sustentando o desempenho no acumulado do ano, enquanto os múltiplos continuam se comprimindo na maioria das regiões.
À frente, os mercados tendem a permanecer muito sensíveis ao conflito no Estreito de Ormuz: energia mais cara complica o quadro de inflação e mantém elevada a volatilidade das taxas, reforçando a importância de resistir à tentação de reagir às manchetes. A temporada de balanços no Estados Unidos está bem avançada, com 85% das empresas reportando acima do consenso até aqui, sinal de que fundamentos fortes ainda podem ancorar os ativos de risco, mesmo com a incerteza sobre juros. E, à medida que os resultados se disseminam por mais setores, o desempenho da bolsa dos Estados Unidos pode depender menos de um conjunto restrito de temas, aumentando o valor da diversificação entre classes de ativos e regiões.
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