Duas das mais importantes tendências estruturais para os investimentos atualmente são: 1) a inteligência artificial (IA) e 2) a reconfiguração do comércio global. Esses dois temas se encontram na relação econômica entre Estados Unidos e China. A ampla adoção da IA é fundamental para a competitividade de ambas as economias, e a disputa para alcançar a liderança nessa área continua intensa. Apesar dos esforços dos dois lados para reduzir os riscos de dependência mútua em tecnologia e em cadeias de suprimentos consideradas críticas, esses vínculos continuam presentes. Além do comércio, os investidores não devem esquecer que a relação entre EUA e China no campo da IA também se dá por meio da própria inovação tecnológica, à medida que a China avança rapidamente no desenvolvimento de modelos próprios e de camadas de aplicação voltadas para modelos de código aberto e IA física.
Nos últimos nove anos, o governo americano e as empresas dos EUA vêm trabalhando para reduzir seus laços comerciais diretos com a China. Em um primeiro momento, esse objetivo parece ter sido alcançado: a China agora responde por apenas 9% das importações totais dos EUA, ante 22% em 2017. No entanto, por trás desses números, ainda existem importantes dependências comerciais1:
- A economia chinesa está cada vez mais voltada para a manufatura de produtos tecnológicos: Diante da fraqueza da demanda doméstica, as autoridades chinesas têm direcionado seus esforços para as exportações de produtos tecnológicos (que cresceram a uma taxa anualizada de 71% em julho). As exportações de insumos relacionados à IA, como servidores, hardware de computação e circuitos integrados eletrônicos, registraram o crescimento mais expressivo.
- Os EUA reduziram parte de suas importações de produtos tecnológicos da China: o ano passado, as importações americanas de produtos relacionados à IA vindos da China, como computadores, servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de rede, recuaram 70% e 41%, respectivamente, em relação ao ano anterior. Esse movimento ocorreu em meio a restrições específicas de importação impostas pelos EUA por motivos de segurança nacional.
- Mas a dependência de alguns insumos essenciais para a IA continua relevante: como mostramos em nosso estudo Navigating the Trade Policy Fog, embora as importações de circuitos integrados e semicondutores da China representem apenas 3% das importações americanas dessa categoria, a dependência permanece elevada em outros insumos relacionados à IA: equipamentos de rede (18%), ímãs produzidos na China (29%) e terras raras (37%).
Os investidores podem interpretar essa dependência de duas formas. Na visão mais otimista, ela estabelece um limite para uma escalada das tensões entre os dois países, como demonstrado pela “trégua comercial” de maio. Na visão mais pessimista, ela adiciona riscos às projeções de expansão da IA e aos ganhos de produtividade e rentabilidade associados a esse processo. Vale ficar atento a possíveis novas restrições dos EUA a produtos chineses, como no caso dos transceptores ópticos, bem como a eventuais limitações impostas pelo governo chinês à exportação de insumos estratégicos, como as terras raras no ano passado.
É importante destacar que as conexões entre EUA e China no campo da IA vão além do comércio. Embora os laboratórios americanos de IA ainda liderem atualmente, os modelos desenvolvidos na China vêm avançando rapidamente e se destacam pelo custo competitivo. Neste ano, a fatia dos tokens processados pela OpenRouter atribuída a modelos de origem chinesa superou a dos modelos americanos, alcançando 60%.²
Mesmo que a adoção corporativa em larga escala da IA nos Estados Unidos continue concentrada em modelos desenvolvidos no país, a concorrência dos modelos chineses pode pressionar os preços, criando uma nova fonte de pressão deflacionária vinda da China para as empresas americanas.